Durante décadas, a trajetória habitacional do brasileiro seguiu uma sequência relativamente previsível: alcançar estabilidade profissional, formar uma família, financiar um imóvel e permanecer nele por muitos anos. Para a Geração Z, nascida entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2010, esse percurso deixou de ser linear.
A casa própria ainda faz parte de seus planos. O que mudou foi a percepção sobre quando será possível comprá-la, qual função o imóvel deve cumprir e quanto de liberdade financeira e geográfica o jovem está disposto a comprometer para realizar esse objetivo.
Segundo o estudo Retratos do Morar, realizado pelo Grupo QuintoAndar em parceria com a Ipsos-Ipec e citado pela Folha de S.Paulo, metade dos entrevistados da Geração Z pretende adquirir um imóvel nos próximos anos. Entretanto, apenas 14% considera o imóvel prioritariamente como investimento — o menor percentual entre as gerações pesquisadas.
Os dados afastam uma interpretação recorrente: a de que os jovens não desejam ter um imóvel. O desejo permanece. A diferença está nas condições de acesso, na relação com o patrimônio e nos atributos que orientam a escolha da moradia.
A casa própria ficou mais distante
A Geração Z chegou à vida adulta em um período marcado por instabilidade econômica, pandemia, transformação das relações de trabalho e aumento do custo de vida.
Ao mesmo tempo, o preço dos imóveis avançou mais rapidamente do que a renda de grande parte da população. Somam-se a isso a dificuldade para formar o valor de entrada, os juros elevados e o comprometimento financeiro de longo prazo exigido por um financiamento.
Esse cenário produz um paradoxo: muitos jovens querem comprar, mas não conseguem visualizar essa conquista no curto prazo. Antes de assumir uma dívida de décadas, parte deles prefere formar uma reserva financeira, consolidar a carreira e manter recursos disponíveis para mudanças profissionais ou pessoais.
Permanecer por mais tempo na casa dos pais, dividir um imóvel ou optar pelo aluguel passa a ser, muitas vezes, uma decisão econômica — e não uma rejeição à propriedade.
Morar deixou de significar permanecer
As gerações anteriores associaram a casa própria principalmente à estabilidade. Para muitos integrantes da Geração Z, estabilidade também significa preservar a capacidade de adaptação.
Mudanças de emprego, trabalho remoto ou híbrido, possibilidade de viver em outra cidade e novos formatos familiares tornam mais difícil prever onde e como estarão vivendo daqui a dez ou vinte anos.
Nesse contexto, aluguel, coliving e moradia por assinatura ganham espaço como alternativas compatíveis com diferentes momentos da vida. Esses modelos não representam necessariamente o abandono da casa própria, mas etapas de uma jornada habitacional mais longa e menos previsível.
A propriedade permanece relevante. Entretanto, deixa de ser o único símbolo possível de segurança e realização.
Menos espaço precisa significar mais eficiência
O aumento do preço do metro quadrado e as mudanças na composição das famílias estimularam a produção de unidades menores, especialmente nos grandes centros urbanos. Mas reduzir a metragem não é suficiente para atender a esse público.
Plantas compactas precisam ser funcionais, bem distribuídas e flexíveis. Iluminação, ventilação, espaço para trabalhar e armazenamento tornam-se decisivos quando cada metro quadrado precisa cumprir mais de uma função.
As áreas comuns também deixam de ser elementos meramente decorativos. Coworking, lavanderia compartilhada, academia, bicicletário, lockers e espaços de convivência podem ampliar a experiência de morar.
Esses recursos, contudo, precisam ser compatíveis com o poder de compra do público. Um empreendimento repleto de serviços, mas acompanhado por um custo condominial elevado, pode se tornar incoerente para o consumidor que pretende conquistar.
Localização também ganha relevância. Proximidade do transporte público, comércio, serviços e lazer pode compensar uma metragem menor, reduzir deslocamentos e melhorar a qualidade de vida.
O que essa transformação exige do mercado?
Compreender a Geração Z não significa simplesmente construir studios ou acrescentar ambientes compartilhados aos projetos. Significa investigar quem é o público, quanto ele pode pagar, em que momento de vida se encontra e quais problemas sua moradia precisa resolver.
Um empreendimento pode acompanhar tendências e, ainda assim, enfrentar dificuldades comerciais se apresentar preço, localização, planta ou custo de manutenção incompatíveis com a demanda.
Por isso, a leitura desse novo consumidor deve começar antes da aquisição do terreno e da definição do produto. Ela influencia o estudo de mercado, a formação do preço, a velocidade de vendas, o planejamento financeiro e a estrutura de capital.
Na visão da Captal, criar valor no mercado imobiliário começa pela compreensão da demanda e pela estruturação correta do projeto. Produto, público, preço, vendas e capital precisam fazer parte da mesma estratégia.
A Geração Z ainda deseja morar bem e conquistar a casa própria. Mas os caminhos até essa realização mudaram. Caberá ao mercado desenvolver produtos que combinem desejo, funcionalidade e possibilidade real de acesso.
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